A Crise

          - Zé.
          - Oi, Zé.
          - E essa crise, Zé?
          - Pois é, Zé.
          - Tá difícil, né, Zé?
          - É, Zé.
          - Onti mermo eu tava matutano... Tu lembra da ditadura, Zé?
          - Asquissim.
          - Aqueles homi vistoso de uniforme quebrando as canela dos cabôco.
          - É mermo, Zé.
          - Era ruim, nera, Zé.
          - Era, Zé.
          - Eu acho que melhorô, Zé. Agora, nóis pode reclamá do governo o tanto que nóis quisé.
          - É verdade.
          - Mas tá caro, Zé.
          - É verdade.
          - Onti eu fui lá na quitanda encontrá o Chico.
          - Cumé que tá ele, Zé?
          - Caiu ôto dente, Zé.
          - Vixe Maria! E ainda tem quantos?
          - Quatro em cima e quatro em baixo.
          - Inda tá é no lucro, o bixo véi. Papai perdeu o último semana passada.
          - E foi, Zé?
          - É. Se for consertá, fica sem cumida pra mastigá.
          - Tá difícil, Zé... Mar num era disso cô tava falano. Eu fui vê o Chico pra nóis fazê um consórço.
          - Coisa chique, Zé.
          - Eu cunsigui arranjá catorze grão de feijão pra cada um dos sete piá.
          - Tudo isso?
          - Tô dizeno, Zé! E o Junin inda matô uns periquito pra nóis fazê um assado.
          - Mais tá ruim assim? E os boi?
          - Só tinha um, mas morreu.
          - E as galinha?
          - O milho tá caro. As bichinha tão mais magra que os periquito.
          - Será que nóis aguenta, Zé?
          - Só se essa crise passá, Zé.
          - Como, Zé?
          - É esses povo da pulítica, Zé. Diviam pará de gastá dinheiro em terno e gravata. E óia que tá calor nessa época do ano.
          - É verdade, Zé.
          - Tem jeito, Zé?
          - Sei não, Zé. Sei não...

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