Girassol

          No meio das pedras, nasce uma flor. Daquela flor, nasce um pequeno casal. Desde o primeiro momento, eles se amam. Mas vem o frio. Debaixo de uma pétala, eles se escondem. Ali vivem, ali constroem. Desde cedo, aprendem que o amor é a maior arma. O homem constrói uma cerca sob a flor. A mulher planta. O homem junta alguns animais. A mulher alimenta os bichos. O homem levanta a casa, e a mulher, a mobília.
          Nasce um menino. Ele ajuda a cuidar da casa. Aprende com os pais que é importante trabalhar. Ele cuida dos animais. No alto da flor, descobre um canto sossegado pra pensar, pra descansar, pra tomar sol. Volta para casa no fim do dia. Os pais, cansados, arranjam fôlego para um belo jantar e um beijo de boa noite.
          Mais um dia na fazenda sob a flor. O garoto não quer mais trabalhar. acha que não vai a lugar nenhum. Quer sair debaixo daquela flor, e assim passa o dia sobre ela. É muito pequeno pra viajar, pra conhecer o mundo, mas, um dia, ele quer sair de lá. Quer conhecer outros campos, longe das asas dos pais, onde o seu trabalho valha alguma coisa.
           Nasce uma menina. Assim como o primeiro filho, ela é amada pelos pais. Cada vez mais, aprende que é importante trabalhar. Passa os dias cuidando das plantas, com quem conversa de vez em quando. O seu irmão vive nas nuvens. Preso na própria cabeça.
          O menino não quer uma irmã. Toma todo o tempo dos pais. Todo o carinho. Ele vai embora. Quer conhecer o mundo. Sem se despedir, vai explorar as pedras. A sua irmã fica, e cuida da casa, da fazenda, dos pais. Sem o irmão, o seu esforço se torna maior. Os pais, já idosos, não têm mais forças para arar o campo ou para cuidar dos animais. Mas a garota é forte.
          Um dia, o garoto volta. Não garoto. Agora, ele é um homem. Mas volta com um coração duro. O calor das pedras o deixou doente. Não há mais amor. Encontra sua irmã, sozinha. No fundo da casa, duas lápides. Depois de chorar pelos pais, ele senta-se à mesa com a caçula. Tem muita coisa pra contar.
          Ele diz que descobriu outros campos. Pessoas como eles, vivendo sob pétalas de pedra. Gente desenvolvida, gente inteligente. Gente que não precisa sair de casa pra conhecer pessoas. Gente com carroças mais rápidas que cavalos. Gente que tem remédios pra viver mais tempo que os próprios filhos. A garota, agora mulher, se encanta com todos aqueles milagres. O homem só esquece de falar uma coisa: Aquela gente não é feliz.
          A mulher aprende que a maior arma não é o amor, é o progresso. Mas o progresso exige sacrifícios. Eles teriam que derrubar a flor. Ali, construiriam um grande edifício, que duraria para sempre. E assim o fazem.
          Só que esquecem do Sol. O Sol, que parece brilhar mais forte. A casa de pedra se torna um forno. O homem tem que pensar, mas o seu único lugar de sossego foi destruído. A mulher tem que pensar, mas está triste demais com a morte de suas plantas e animais, sua companhia. O Sol não poupa nada.
          Anos depois, chega um viajante na fazenda escondida entre as pedras. Já não se parece mais uma fazenda. É só areia. No meio do pequeno deserto, ele encontra uma pedra. Não é uma pedra. É uma casa. Dentro da casa, dois irmãos. As lápides no quintal se tornam quatro. O viajante tem que partir. E assim faz. Vai procurar um lugarzinho pra se encostar.
          No meio das pedras, nasce uma flor.

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