Amanhã

          Ó Glória, por que me deixastes? Sabes que sem ti não sou nada! Me abandonastes na estrada do solidão, no cruzamento com a rua do sofrimento, onde se ergue o edifício da dor! Como pôde me abandonar? Como pôde apunhalar meu frágil coração, sabendo que, sem teu amor, nada tenho? Não existem mais motivos para viver. Se não posso viver com teu amor, eu prefiro morrer!
          Hoje mesmo vou pular da ponte. Se a queda não me matar, me afogarei entre a poluição. O que sou para ti, senão um inútil pedaço de lixo, jogado ao mar da tristeza? Mas... Hoje o pôr do sol está tão bonito. Ainda mais quando reflete nas águas do mar, em todo o seu brilho acolhedor... É melhor deixar para morrer amanhã.
          Agora, sim! Finalmente vou morrer, Glória! Vou trespassar meu peito com a faca da cozinha, que, embora cega, pode destruir corações, assim como o meu amor por ti! Mas... É melhor tomar café primeiro. Os ovos temperados e o bacon crocante descem pela minha garganta como pedaços do paraíso entre um pão macio como uma nuvem, enquanto o iogurte de mamão parece o néctar dos deuses... Não tem problema morrer amanhã.
          Hoje, eu não escapo! Vou me eletrocutar na banheira, dando um fim ao estorvo que faço a este mundo, sem o teu carinho para me consolar, Glória! Mas... A água está tão quentinha... Os sais de banho tão cheirosos... Minha alma parece ser refrescada e acolhida por um belo mergulho. Amanhã, eu juro que me mato!
          Eu vou pular no meio da avenida! Alguma boa alma vai tirar a minha vida, inútil vida, que de nada mais serve para mim sem a minha Glória. Mas... O que é aquilo? Um humilde artista de rua, um garoto, toca violão na calçada, em troca de algumas moedas. Ele toca bem. Me lembra da minha infância... Eu posso morrer amanhã.
          Não consigo morrer como quero, então vou sumir de vez! Vou me jogar de um precipício no meio do bosque, Glória! Ninguém vai poder me impedir agora! Eu juro que vou me jogar! Mas... O que é aquilo? Um belo bem-te-vi começa a tocar sua linda música enquanto as árvores farfalham ao balanço do vento. A melodia da natureza me aprisiona. Amanhã eu dou um jeito em mim.
          Certo. Hoje, não posso fugir. Vou beber ácido. Nada vai me impedir de me matar! Pra quê garganta, se não tenho minha Glória? Mas... Já que vou perder a minha garganta, gostaria de me despedir dela. Vou tomar um belo vinho tinto. O seu aroma de uvas campestres e o seu gosto doce e agradável tomam conta de mim. Agora, quero me embriagar. Amanhã eu faço qualquer coisa.
          Eu desisto, Glória. Não posso mais escapar do meu destino. vou me pendurar no ventilador. Mas... Espere. Alguém bate à porta. Seria indelicado morrer sem atender à porta. Abro-a bem devagar. É a nova vizinha. Não preciso mais de ti, Glória. Me apaixonei.
          Mas essa paixão eu não posso adiar.

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