Loirinho
Eu nunca quis dividir os meus brinquedos. Ser filho único é solitário, mas extraordinariamente lucrativo. Nem sempre papai e mamãe estão aqui em casa, mas a babá e o meu videogame são companhias suficientes. E agora me aparece essa. Alguém pra dividir a casa e a atenção dos meus pais. Eu sempre fui terminantemente contra um novo irmão, e, quando esse me apareceu, eu quis menos ainda.
Mamãe falou que tinham adotado ele, e que ele ficaria conosco. Eu quase desmaiei. Aquele pivete loiro que ela trouxe iria arruinar a minha vida boa. Só faltava me pedirem pra cuidar dele. Que pena que eu falei isso em voz alta. Agora, eu sou obrigado a dar banho naquele loirinho fedorento, convencido e baixinho que os meus pais trouxeram para dentro de meu lar, minha batcaverna, minha fortaleza da solidão.
Ele não vai com a minha cara. Vive roubando os meus petiscos e as minhas roupas, e mesmo assim o papai não briga com ele. Diz que ele "não sabe o que faz". Mas um dia eu pego o trouxa. Vou botar pimenta no cereal dele. E o pior de tudo é que as garotas acham ele fofinho. EU sou fofinho! Quero ver quando ele começar a roubar as coisas delas também.
Um exímio chantagista. Papai e mamãe ficam o dia inteiro fora, e eu fico só com ele. Ele me chama pra brincar, mas eu prefiro matar terroristas no Call of Duty. Então ele se deita no chão sujo e fica me encarando com cara de abandono. Quando eu finalmente resolvo brincar com ele, ele sai correndo. Ninguém merece um malandrinho desses.
Ninguém tem coragem de entrar no quarto dele. É fedorento demais. Alguém devia ensiná-lo a ter comportamento de gente. Eu sei que ele é pequeno e tal, mas já está na hora de aprender a fazer as necessidades no vaso sanitário. E eu já descobri porque o papai não briga com ele.
O meu próprio pai, que me criou e me deu amor, foi comprado por um pivete. Todos os dias, o loirinho corre até o carro do papai, quando ele chega do trabalho, e fica todo sorridente e alegrinho. Sonso. Só faz isso pra esconder todo o estrago que fez na casa. E a culpa ainda é minha, o tal "responsável". Qual é? Eu sou uma criança! Vou denunciar pro ECA.
Só tenho paz quando levam a criatura pro médico. E isso também me revolta. Todo mundo fica com pena dele quando vai levar injeção, mas quando sou eu, eu tenho que ser "rapazinho" e aguentar a "picadinha"? Como assim? E a igualdade?
Ouvi dizer que vão comprar uma roupinha para ele. Pra quê? Ele já circula pelado pela casa toda mesmo. Nunca tive essa liberdade. Pode parecer inveja ou ciúmes, mas a casa já está se tornando uma repartição pública. Não existe mais ordem. Cansei do loirinho.
Se bem que ele é a minha única companhia de verdade. Quem sabe eu possa consertar ele. A fofura dele pode ser uma arma impressionante. Enquanto me perco em pensamentos, ele chega de mansinho. Se encosta em mim e se deita, aconchegado em meu peito. Já não parece tão ruim.
É assim que é ter um cachorro.
Sua crônica tem um quê de Fernando Sabino. Ótimas observações que nos levam à resolução do mistério da predileção dos pais pelo Loirinho. Parabéns.
ResponderExcluir