Carta aos Brasileiros
Primeiro a gente tem que saber o que é esse tal de "jeitinho brasileiro" pra poder combatê-lo. Essa coisa é mais maléfica e infecciosa do que qualquer vírus que você possa pegar. Mas eu não posso falar de alguma coisa sem argumentar para tal. Por isso eu vou procurar aqui a fonte desse mal. Com a história ao meu lado fica bem mais fácil.
Os portugueses chegam ao Brasil com um sorriso bonito no rosto. Não parecem ser caras maus. O índio se encanta com aquele novo tipo de gente. Aí começa a se instituir o patrimonialismo estudado por Max Weber. O nativo passa a cuidar daquela visita, obedecer e se submeter a ela, de forma implícita, ganhando presentes e agrados europeus. O jeitinho brasileiro nasce no carisma e na cordialidade, grandes armas para se lidar com as outras pessoas.
Pois é. Só que nem tudo são flores. O povo brasileiro foi usado, maltratado e desrespeitado pelo colonizador por séculos. Outra característica passou a fazer parte do novo jeitinho: a sobrevivência, o próprio bem. Os cidadãos brasileiros são fortes. Aguentam de tudo, mas também sabem reclamar da maioria das coisas. E isso não é de se estranhar, visto que por tanto tempo realmente houveram muitos motivos.
Agora vivemos na tal democracia. Existem leis que, ao menos na teoria, devem funcionar para todos, e um sistema que influencia cada característica do nosso meio social e de nós mesmos. Ao contrário do que muitos pensam, as falhas são pormenores. Isso se resolve depois. Mas também não podemos nos ater aos velhos clichês como "é preciso respeitar o próximo" ou "ser honesto conserta o país". Na teoria, deveria funcionar. Mas eu estou tratando aqui de estatísticas.
"Cumpra as leis", "pense no próximo", "seja humilde". Pensamentos como esse devem funcionar, sim, mas como uma consequência de um debate anterior. Só o que não falta são pessoas que dominam o conteúdo da ética, da moral e do respeito, etc. Lhes falta traduzir isto na prática. A história do Brasil não deve ser a de um país de coitados explorados. Isso já passou. Essa sociedade individualista, capitalista e sei-lá-o-que-mais-ista existe, sim, e em grande parte do mundo, mas o jeitinho brasileiro, de alguma forma, é a "versão de bolso" da corrupção. Essa revolta sobre os governos e pessoas egoístas, deste modo, só causa o agravo deste quadro, onde existe.
A moral são as leis. Sejam as leis do Estado, as normas de conduta em uma escola ou as suas tarefas domiciliares. Não é tão difícil de entender isto. Eu sempre achei a palavra "ética" muito bonita, tanto no som quanto no significado. É possível entendê-la como um debate interno sobre a moral. É a ponderação sobre a aplicação das leis nas suas ações. É como eu escolher furar o sinal vermelho para levar meu filho às pressas para o hospital. Ao contrário do que pensamos, ela acontece sim na cabeça dos praticantes do jeitinho brasileiro, só que utilizando de parâmetros errôneos.
"O governo vive me roubando, então eu posso fazer um "gato" na energia da rua". Já ouvi isso uma vez. Fiquei pensando. Se todo mundo pensasse assim, não existiria uma alma viva digna de confiança nesse mundo. Isso parte de preceitos individualistas, que vêm de muito longe no passado. Se você pensa assim, não é muito diferente do governo. Aí está um dos fundamentos do combate ao jeitinho dos corruptos: não se iguale a eles. O estudo ajuda a entender os verdadeiros fundamentos da ética, mas nem por isso alguém sem estudos vai deixar de perceber o que é uma atitude de não-hipocrisia.
Se você aceita viver numa sociedade, ou numa democracia, deve entender que as leis foram feitas para serem cumpridas. Se você por acaso as descumpre, não deve aceitar aquilo. Primeiro, deve descobrir o motivo daquilo. Foi ético? Ou melhor, foi condizente com os meus valores e virtudes, e movido não por revolta, vingança ou qualquer outra futilidade, mas por um pensamento racional que valoriza o bem comum? Você então interpreta esses resultados. A lei é inconveniente? Eu posso melhorá-la? Seu papel como cidadão é esse. Mas todos erramos. O que fazer quando o jeitinho se apodera de nós, mesmo que sem querer? Não se pode justificar a desonestidade. É a receita do caos.
A prática já está implantada nas nossas mentes, na sociedade. As pessoas mais influentes de hoje não veem problemas em furar uma fila. Se o jeitinho brasileiro surge da esperteza, do carisma, ele é basicamente um vício. E não se engane. Muitos dizem que é uma coisa inerente ao ser. Mas não existe um jeitinho norueguês, ou mesmo um jeitinho do Alasca. A história do povo o torna diferente. O básico para lutar contra essa prática é, primeiro, perceber o mal que ela causa, seja a desorganização múltipla da sociedade ou a corrupção constante do indivíduo. E então, combatê-la na pessoa mais importante do mundo: você mesmo. Pode ser um clichê, mas não é simplesmente ser honesto.
É ser ético a nível molecular.
A prática já está implantada nas nossas mentes, na sociedade. As pessoas mais influentes de hoje não veem problemas em furar uma fila. Se o jeitinho brasileiro surge da esperteza, do carisma, ele é basicamente um vício. E não se engane. Muitos dizem que é uma coisa inerente ao ser. Mas não existe um jeitinho norueguês, ou mesmo um jeitinho do Alasca. A história do povo o torna diferente. O básico para lutar contra essa prática é, primeiro, perceber o mal que ela causa, seja a desorganização múltipla da sociedade ou a corrupção constante do indivíduo. E então, combatê-la na pessoa mais importante do mundo: você mesmo. Pode ser um clichê, mas não é simplesmente ser honesto.
É ser ético a nível molecular.
O jeitinho brasileiro se desenvolveu como um mecanismo de navegação social. Furar a fila, alegando estar grávida. Pedir para um conhecido que está numa fila pagar sua conta. Com a política não é diferente. Por que não usar os trâmites burocráticos em prol de si? O jeitinho brasileiro está arraigado em todos nós, infelizmente.
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