Ela

          Alguém havia tocado a campainha. Eu tinha que me esconder. E se fosse Ela? Eu não podia arriscar. Resolvi deixar a minha irmã abrir a porta. Obviamente ela reclamou, depois de me mandar abrir a porta e eu não responder. Sempre foi uma preguiçosa. Irmãos mais velhos devem ser assim. Infelizmente, agora ela ia ficar me chamando de preguiçoso também. Ela não sabia que eu não podia sair do meu esconderijo, a nenhum custo. O medo dominava todas as células do meu corpo.
          Eu tremia. Felizmente, o corredor de casa era longo. Eu tinha uns sete segundos antes de minha irmã chegar à porta, olhar pelo olho mágico e nem desconfiar do perigo iminente. Isso caso fosse Ela. Eu torcia com todas as minhas forças para que não fosse Ela. Comecei desesperadamente a olhar para todos os cantos à procura de um esconderijo, de preferência um que pudesse me manter em segurança até Ela ir embora.
          Um cesto de roupas? Não. Talvez quando eu fosse menor. E as minhas roupas sujas estavam ali. Eu poderia morrer intoxicado. No meu quarto? Não. Ficava perto demais da porta de entrada. Eu não poderia correr até lá a tempo de escapar. O quarto da irmã mais velha? Embora fosse o lugar mais caótico que eu conhecia, o aroma de lavanda e morte ainda era melhor que o das minhas roupas sujas.
          Adentrei no território inimigo. Uma escolha arriscada, mas invadir o quarto com cor de rosas e morte da minha irmã era com certeza melhor que Ela. Com toda certeza. Mas raramente eu entrava ali. Desconhecia as armadilhas letais que ela escondia naquele recinto. Eu ouvi a porta de casa abrindo. Não havia mais tempo. Entrei no misterioso subterrâneo debaixo da cama do inimigo.
          Aquilo era um pedaço de pizza mofado ou o corpo do nosso hamster, supostamente morto pelo gato do vizinho? Eu realmente não queria saber a resposta. E aquela outra sombra no canto, era, por acaso, a minha camisa preferida, manchada de pizza mofada? Eu também não queria saber essa resposta. Eu nem sabia se iria sobreviver àquele fatídico dia.
          Ouvi passos sobre o piso de madeira que rangia. No final, aqueles cupins estavam me alertando sobre a proximidade do perigo, sobre a chegada d'Ela. Eu prendi a respiração como nunca antes, enquanto ouvia a minha irmã falando para Ela que os nossos pais tinham ido ao mercado. Se eles estivessem em casa, eu poderia ter mais tempo. A minha irmã me traiu. Eu ouvia ela junto da ameaça, me procurando, supostamente para "falar" comigo.
          Seu eu tivesse sorte Ela desistiria da procura, depois de alguns minutos. E então o pior aconteceu. Nosso cachorro me encontrou. Ele nunca foi com a minha cara mesmo. Provavelmente sabia, de alguma forma, que denunciar a minha localização era morte certa. Já não bastava isto, ele começou a latir, provavelmente para o hamster morto, ou pizza mofada. Naquele momento eu rezei. Implorei para escapar daquilo, e jurei que nunca mais chamaria minha irmã de mala. 
          A garota e Ela chegaram. Olharam para onde o cachorro X-9 latia, e me encontraram. Ela deu um sorriso. Provavelmente estava pensando em como me fazer sofrer. Eu tinha de sair debaixo da cama e enfrentar o meu destino como um homem. Não havia mais escapatória. Enquanto minha irmã me olhava de um jeito assustador por ter invadido seu quarto, eu encarava Ela.
          A tia Eunice era gorda. Provavelmente por haver devorado todos os meus primos. Me olhava daquele jeito estranho, como se eu fosse o jantar. Me pegou com seus braços fortes e me deu um abraço de urso. Eu perdi o ar. Parecia que eu tinha quebrado sete costelas. E depois me soltou, para que eu sobrevivesse a mais torturas. Eu observava minha irmã rir do meu destino. Sádica. Ela me torturou psicologicamente, me chamando de magrelo e de peso-pena. Libertou memórias obscuras do meu passado de bebê, e ainda teve a audácia de lembrar que havia me dado meu primeiro banho. E por fim, como uma cobra depois de sufocar a sua vítima, ela avançou para me dar o seu beijo de morte. Enquanto via aquela boca cheia de saliva tóxica a se aproximar da minha bochecha, eu imaginava como era o paraíso.

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