Olhe nos meus olhos
Há certas coisas que perderam seu sentido ou o tiveram alterado no mundo contemporâneo. Não digo que não sou adepto de várias das práticas modernas que me torcem o nariz, mas também não digo que sou mais feliz por causa delas.
Por exemplo, as fotografias. Há quanto tempo elas, em sua maioria, não são utilizadas para criar memórias? É uma intenção legítima. Um álbum de fotos não era também um álbum de memórias, para se guardar sentimentos, momentos únicos como cada um que se passa sobre a Terra?
Hoje é tão fácil tirar um autorretrato (vulgo "selfie", para os íntimos). Houve um tempo em que as pessoas tiravam fotos porque saíam. Quantos hoje não saem de casa para tirar fotos? E pra quê? Para montar um lindo álbum revestido de camurça e compartilhar memórias daqui a um tempo, quando a saudade bater? Nah. É pra postar e mostrar pras pessoas o quanto você é feliz.
E digo mais, não digo que seja algo inválido por todo. As pessoas querem estar perto de pessoas felizes. "Uau, olha as coisas que aquela garota faz. Ela é tão original, divertida e hairstylist. Eu devia me aproximar dela". Aí todo mundo vira amigo de todo mundo, se diverte, se apoia e cria uma imagem legal de si mesmo. Quanto mais espontânea, melhor, diga-se de passagem.
Mas não tão espontânea. Você bem sabe que se fosse fazer tudo o que tem vontade na frente de uma câmera (mesmo sem ser agressivo ou babaca) poderia facilmente ser o protagonista de uma marmotagem, uma munganga ou uma doideira "pra chamar a atenção", como dizem os críticos de plantão. Mas talvez seja melhor pra humanidade que você não mostre a sua habilidade de dançar como uma capivara epiléptica (agora fiquei curioso pra ver algo do tipo), embora eu ainda ache extremamente válido e terapêutico.
O ser humano está ainda encantado com a internet. Uau. Já avançamos tanto que nosso perfil se torna praticamente o nosso próprio avatar. Oh! Acabou de chegar pelo correio o meu cartão presente pra comprar um tênis novo pro meu avatar! Coisa linda! Dá uma angústia, um aperto. É mais fácil passar algumas horas incrementando o seu perfil do quê incrementando a sua vida. É duro, mas verídico.
Não se pode culpar ninguém! Bom, talvez não o grande público. Eles estão presos num sistema que hoje é global. Aquele velho lance de aproximar o que é de longe e distanciar o que é próximo. Agora você está constantemente sob julgamento público. Não sei se o mais difícil é ser um cara que ninguém conhece ou um cara constantemente sob olhar do público, sendo julgado até pela irregularidade da respiração. Sinistro. Quem é famoso deve saber.
Mas caramba, quantas portas não foram abertas? A quantos países não podemos chegar com alguns cliques? Sendo assim, se todo mundo pode me ver, nada mais normal que todo mundo me achar um cara descolado e querer tirar umas selfies comigo, né não? Fala sério? Olha o meu feed, que coisa mais linda gente.
Sair na rua é um instrumento de marketing, você sabe disso. Pra muita gente, ao menos. Uma foto no bar do seu Zé da esquina agora é um movimento em prol dos costumes antigos e da boa vizinhança. Que saco, seu Zé. Nisso que dá botar wifi no bar.
A gente não pode mais culpar muitas pessoas por elas terem perdido o tato. Por saberem muito bem que a luz natural valoriza a imagem, mas não terem mais a capacidade de dizer um bom dia olhando nos olhos de uma pessoa. É um hábito perdido? Claro que não. Mas olhar nos olhos não é fácil. Quem sabe sabe que um olhar direto nos olhos traça uma reta que passa através da pupila e vai bater na alma, uma instância cada vez mais distante. Normalmente essa parte mais sentimental, emocional das relações humanas não pode ser traduzida ou trabalhada através de uma tela brilhante. Quem sabe também sabe que você só conhece uma pessoa de verdade estando ao lado dela. De fato, nós interagimos com o mundo usando o corpo, as sensações. Por que logo as pessoas poderiam ser traduzidas por alguns pixels brilhantes? Logo as pessoas, as criaturas mais coisadas que tem?
Nam, tem jeito não. Tem que viver com isso, né? Não é como se desse pra reverter os processos. Algumas coisas não voltam. Alguns sorrisos são falsos mesmo. Algumas fotos feias vão ser deletadas e algumas pessoas nunca vão se conhecer de verdade. Mas o que se pode fazer? Não é que seja ruim. Talvez só não seja saudável. As coisas fáceis demais perdem o valor. Certos sentimentos não podem ser traduzidos. Não muda o fato de que numa noite solitária as pessoas vão encontrar alguém pra conversar no espelho negro dos seus celulares.
Não é real o suficiente. Quero viver e ser vivido intensamente, da cabeça aos pés.
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