Indefinição Espontânea

No escuro de um cômodo bagunçado, um quarto empoeirado e caótico, extremamente semelhante às convicções enevoadas de um neo escritor, eis o próprio, uma sombra do que deseja ser. Um borrão no universo humano, registrando nada menos que a miséria de suas próprias condições, através de projeções tão caóticas quanto ele, na tentativa de um dia atingir a satisfação antiga do reconhecimento público, ou no mínimo a satisfação consigo mesmo, esta ainda mais utópica.
Será possível que seja realmente necessário o reconhecimento público? Algum domínio da palavra, na tentativa de mostrar a alguém algo que valha a pena ou de esperar que algum tipo de júri em algum lugar e com olhos distintos possa provar a um homem que o que ele faz não é simplesmente vomitar pensamentos sem utilidade alguma. Talvez, em algum lugar, um sujeito ainda mais poético que o próprio poeta lhe dê algum motivo para fazer o que faz, seja lá o que for.
Um dia não mais motivado pela própria ambição e nem pelo gosto do significante, mas saboreando o significado e o que transcende, o subjetivo, o motivo e a origem de toda reflexão. Se um dia fosse capaz de atingir tais condições, a felicidade se faria mais próxima.
Uma possibilidade de interpretação seria também a falha em si. A preguiça de lutar constantemente em busca da felicidade, ingênua, fragmentada, inconsciente de si mesma, pode iludir o escritor a ponto de pensar que algum dia, alcançaria o topo da montanha, o dogma final, o postulado, a sentença que profere nada menos que a sua felicidade.
Mas também é consciente crer que a plenitude é uma luta constante, não alçada a partir de uma cadeira, uma luminária, uma tela em branco, um jazz um tanto quanto sexy e algumas reflexões entediantes, mas durante. Ou então junto de. Ou então de forma simultânea a. Ou então dependendo de uma vontade imensa, que separa os vivos daquele que assassinam a si mesmos, ou daqueles que, mesmo com o coração batendo, não têm diagnosticada a vida, a mais bela das doenças terminais.
A mesma vontade que, unida a uma vaidade humana característica e que o faz produzir e buscar algo que não sabe o que é, se une à vontade de viver, tornando a melancolia, convenientemente, a indefinida inspiração do autor.


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