A inspiração foi pelos ares

          A chegada em casa depois de um dia cansativo de trabalho é libertadora. Mas também é um saco. Como pode ser essa rotina assim tão cruel a ponto de me dar esperança e depois destruí-la frente a programas solitários e entediantes em uma casa solitária e entediante, onde mora um ser humano solitário e entediante?
          Será que posso ao menos alimentar o estômago vazio, apelando para que a saciedade de uma necessidade biológica me dê um pouco de alegria? Deixe-me ver a geladeira... Frustração imediata. O queijo está mofado. O presunto está verde. O leite já virou coalhada. E o resto... Não tem mais nada. Há quanto tempo não faço compras? Devo ter feito da última vez que fiz comida em casa. Quando foi isso? Certamente antes de deixar tanta louça assim na pia. Acho que tem algum roedor ou réptil vivendo entre as panelas sujas.
          Acho que hoje vou ter que pedir comida de algum restaurante meia-boca da vizinhança. Algo que dê pra pagar com meu salário de assistente. Assistente do quê? Não me recordo agora. É só o que faço há um bom tempo. Já fui assistente de lanchonete, de firmas, nossa, eu já fui assistente de um assistente. Hoje, nem sei mais. Eu repasso as ligações, recebo as encomendas e cuido dos compromissos do cara. Quem é o cara? Acho que se chama Jorge. O que ele faz? Eu posso estar trabalhando para um traficante que não vou saber. De qualquer forma, é triste.
          Não. Quero que hoje seja diferente. Vou sair de casa e me divertir. Primeiro, ligar pra uns amigos... Que amigos? Ah que droga. Ainda não tive tempo de me enturmar com meus colegas de trabalho. Minha família inteira mora em outra cidade. Ninguém mandou eu não querer ser gerente da loja de pescaria do meu pai. Ninguém  mandou eu ir pra cidade grande. Ninguém mandou eu ser assistente. Mas tudo bem, eu tenho um amigo na cidade, Ele me ajudou quando vim pra cá. O nome dele é Tom, e também saiu de sua terra natal. Nós nos conhecemos... Ah! É mesmo. Eu e aquele filho da mãe estamos brigados. Eu tenho quase certeza que foi por causa de uma mulher. Ela devia ser linda... Mas agora não lembro dela. E pelo que eu sei ele está solteiro. Mas quem tem que pedir perdão é ele. Não quero saber daquele traíra.
          Por falar nisso, eu bem que devia arranjar uma namorada. Será que Jane não gostaria de sair pra jantar comigo? Ela parece uma garota bem legal. Não a conheço muito bem, mas ela sempre me trata com gentileza. Ela trabalha na sala de cópias. Só que lembrei qual o problema... Eu não tenho coragem. Não tenho coragem de ligar pra ela. Por que ela quereria sair comigo? Eu, um ser humano medíocre, vivendo uma vidinha medíocre.
          Eu adoraria me sentar agora e continuar me lamentando. Seria mais fácil, e nem por isso mais feliz. Não. Tem algo aqui dentro que não deixa. Um incômodo. Está revirando o meu estômago. Está bagunçando a paz preguiçosa do meu organismo estagnado. Pela primeira vez em muito tempo... Sim! Eu quero sair desse buraco. Vou tomar o controle da situação e me tornar um homem mais feliz. E farei isso sem me lamentar, sem pedir ajuda, pois sou capaz. Fui capaz de tomar coragem para sair da casa dos meus pais, então provarei a todos que sei tomar conta de mim. Em alguns meses... Não... Em algumas semanas... Ninguém me reconhecerá! Serei um novo homem!
          Primeiro, vou arrumar a casa. Lavar toda a louça, jogar fora a comida estragada e enfrentar o animal selvagem que toma morada na pia. Sim! Ainda lembro como fazer uma bela salada verde... Vou cozinhar a minha própria comida, cuidar da alimentação. Quem sabe não fico esbelto?
          Depois, vou descobrir quem é Jorge. Vou trabalhar com vigor e determinação e ganhar status na empresa. Fazer meu nome crescer! Quem sabe não convido os meus colegas para um jantar? E... Vou convidar também o Tom! Não importa quem errou, não quero perder a nossa amizade. Agora vejo as coisas com clareza.
          E Jane... Agora sim, não perde por esperar. Terei coragem de ligar pra ela. Serei sutil. Pra quê pressa? Mas uma coisa é certa: ligarei ainda hoje!

          (Pausa dramática) (Onomatopeia constrangedora)

          Ao que parece, minha epifania eram só gases. E todos as minhas vontades revolucionárias foram embora junto deles. Assim, fácil fácil. O quê? Não fui educado o suficiente? Esta não foi uma conclusão suficientemente bela ou cheirosa pra você? Odeio te dizer, mas nem tudo são flores. É muito mais fácil me sentar na minha poltrona aconchegante e me acomodar, e muito mais realista. A mediocridade é a maldição de alguns. Tem que aprender a viver com ela. Epifania é coisa de criança. É melhor ligar pro cara da pizza, e rápido. Estou morrendo de fome e a novela já vai começar.
          Outro dia eu lavo a louça.

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