Consequências da Guerra

          "Finalmente frente um ao outro, cá estamos, minha cara. Daqui só um sairá vivo, e você sabe disso. Não posso imaginar o que está pensando agora, nunca consegui decifrá-la, mas saiba que foi uma oponente formidável, e digo isso porque já enfrentei muitas batalhas, com inimigos mil vezes mais fortes, mas nenhum capaz de me levar ao limite como você. Penso se não é assim a vida, não é? Será que ganhamos as coisas através da força bruta? Que eu saiba, não imperam mais os homens das cavernas, e os poucos que ainda existem estão desaparecendo. Os homens mais perigosos são também os mais espertos, certo? Sejam eles políticos, formadores de opinião ou psicopatas, e, talvez, Deus nos proteja, os três! A questão é que precisei me reinventar para prosperar nessa nossa pequena guerra, e por isso sou grato. Também agradeço pelo jogo limpo, apesar de uma batalha nunca ser civilizada. Não sei como é no seu mundo, mas no meu as ameaças podem morar ao lado. Tantos amigos que, no final, se revelaram em busca somente da minha derrota, ou pior, foram covardes nos momentos de conflito. Esse tipo de guerra não tem fim, talvez seja algo com o qual temos que lidar e nos fortalecer. No final, você não tentou ser algo que não era, e muito menos desistiu da batalha. Por mais que eu a tenha perseguido por todos os cantos, você nunca chegou a bater em retirada, não é? Eu entendo que um combatente em desvantagem deve utilizar as sombras em seu benefício, e entendo que você nunca esteve tão perto para que pudesse se tornar um alvo fácil e nem tão longe para que fosse considerada uma desistente. Tantas vezes a procurei, enquanto se encontrava imóvel sobre minha cabeça, antenada a cada pequeno movimento, preparada para o conflito que sabíamos que aconteceria, cedo ou tarde. Não sei se pensa isso, mas eu me pergunto, sim, se esta é ou não uma luta justa. Acho que ambos queremos o bem de nossas famílias, não é? Você tem uma família? Ou é como um daqueles relacionamentos abertos? Minha filha inventou esse negócio de relacionamento aberto, e nunca sei que garoto abusado estou botando pra fora de casa. Você não está totalmente sozinha, isto é um fato. Já matei alguns de seus companheiros, e me desculpe por isso, mas não há guerra sem perdas. Acontece que há uma discrepância enorme de poder de fogo. Me sinto como um pretensioso vilão de uma história em quadrinhos, ridiculamente mais poderoso que o herói. Mas estamos na vida real, e na vida real não há heróis ou vilões. Somos simplesmente peças no tabuleiro do combate, lutando pelo bem dos nossos (ou pela sobrevivência). Talvez em outra vida, minha cara, pudéssemos ter destinos diferentes. Se não tivéssemos nascido em lados opostos. Não me confunda, eu ainda tenho uma família, e certamente você tem aqueles como você. Não tenho certeza, mas não creio que algum dia nossos tipos viveram em harmonia, sem o véu do nojo e da brutalidade. Pois é só com brutalidade que sabemos combater as pragas, por menores que sejam, pois são ameaças, evidências de nossa decadência. Acho que tínhamos que nos encontrar, afinal. O final não seria outro, isto é certo, mas era necessária a experimentação do conflito psicológico pelo qual passei. Talvez, originado em mim, enquanto tentava em vão acertar-te com artilharia pesada, quando necessitava entender a tua natureza sorrateira e flutuante, talvez em ti mais evidente que em teus companheiros... Mas estou me estendendo além do que deveria. Esteve em silêncio por todo esse tempo, imagino que não dirá última palavra alguma. A gratidão que tenho por nossa transcendental batalha não diminuirá a glória do momento de sua derrota."
          Slash! - Um golpe inesperado de chinela acerta a vítima em cheio - "Finalmente, pai! Acho que matei a barata. Ela estava distraída. O senhor... Não estava conversando com ela, né? E o que está fazendo com minha atiradeira?" - Disse o menino, olhando com curiosidade para o pai, que mirava com o instrumento uma pedra de naftalina. "Enfim, o senhor dá um jeito na sujeira, tá?" - Então o garoto volta por onde veio.
          O homem larga a baladeira e a pedra de naftalina. Impassível, senta-se na poltrona de sua sala de estar e fixa o olhar em qualquer coisa, menos na figura deformada morta à sua frente. "Ele fez o que tinha que fazer" - Diz a si mesmo. "Ele fez o que tinha que fazer".

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