Crônica dos Dias Leves
Lembro-me dos tempos de escola, quando ainda tínhamos que arrumar, antes de dormir, os livros e cadernos cada vez maiores em bolsas cada vez maiores, condizentes com as exigências do mundo moderno. Moderna era a dor nas costas.
Porém, num dia raro, senti a mochila mais leve. Era um dia de poucos livros, e minha colega do lado sabia disso. "Bela bolsa, Tamires. É nova?". "Não. É a minha bolsa dos dias leves". Aquele objeto feito de jeans e tecido rosa-choque (com bolinhas brancas) me fez viajar.
Quisera eu viver de dias leves, dias em que o meu futuro é meu, dias em que as paixões, as dores, os amores possam ser guardados juntos dos livros, grafites, bilhetes, em minha bolsa dos dias leves.
Dias em que o maior problema é o latir do cachorro do vizinho, ao ouvir o cantar dos pássaros, cuidadosamente pousados em seus ninhos, no cume das árvores frutíferas frondosas dos quintais, para nos lembrar que não estamos sozinhos.
Dias em que as guerras e as dores são pensamentos ruins, pesadelos distantes da criança que em mim habita, que dorme após comer muito doce na sobremesa (embora isso não seja cientificamente comprovado).
Dias em que os vícios não têm lugar... Ou melhor, têm, sim! Pois, se ainda sei como sinto, sou completamente dependente dos beijos e abraços do meu amor, do calor que trazem, que acalenta a alma.
Azul-bebê, verde-lima, vermelho-paixão. Sombras? Somente para fazer companhia nos dias de sol. Dê-me um arco-íris de cores belas, pois lá vêm os dias leves, logo atrás do peso das carregadas nuvens de tempestade.
Foi curta a minha viagem, mas por tão exíguo momento percebi que sempre tive uma bolsa dos dias leves, onde guardo tudo o que há de mais bonito, e que permite à alma a liberdade. Está dentro do meu peito, pulsando mais forte do que nunca.
Tão leve que chega a flutuar. Seu texto é de uma sensiblidade muito grande, imbuído de um olhar muito atento.
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