O Dia em que as Fadas me visitaram
Eu já estava quase cochilando quando ouvi o barulho na janela, um ligeiro baque surdo e um brilho na parede. Estava meio grogue de sono, mas me levantei pra ver o que acontecia. A luz sumira. Abri a janela e estendi o pescoço pra fora. Nada. Voltei pra cama, deixando a janela aberta. Fechei os olhos e senti o sono voltar. Um novo brilho perturbou minhas pálpebras. Me levantei, já um tanto quanto frustrado, e levei um susto.
Olho para o alto e vejo a criatura cintilante. mais ou menos do tamanho da minha mão, ela se movia como um beija-flor, e tinha uma cabeça desproporcional em relação ao corpo. Sua face era delicada como a de um querubim.
Olhando pra mim com uma fase chorosa, ela me deixou perplexo. Pensei em chamar meus pais, mas não conseguia tirar os olhos da criaturinha fascinante. Lembrando-me de um filme famoso, estiquei-lhe o dedo lentamente, para fazer contato. Ela se aproximou alguns centímetros, mas já era tarde demais. No canto de sua boquinha, uma pequena sujeira. Uma mancha escura, escarlate. talvez sangue.
Em questão de segundos, os olhos da criatura se transformaram. O querubim por algum motivo parecia com raiva. Os olhos, agora tão escarlates quanto o próprio sangue. Sua boca abriu um sorriso fisicamente impossível, um vácuo negro que lhe preenchia o rosto.
Rapidamente, tive meu dedo engolido. Eu o senti sendo triturado e arrancado. Pulei para trás enquanto tentava estancar o sangramento com a outra mão. O tapete ficou manchado de vermelho. O sorriso mais uma vez se abria no rosto da pequena, agora manchado pelo meu sangue. Ela investiu, dessa vez em meu rosto. Rapidamente, peguei um retrato de meus pais sobre a cabeceira da cama e a rebati. Ela caiu no chão com um pequeno chiado.
Minha mão doía desesperadamente, mas não melhorou quando percebi as estrelas do céu se movendo atrás da janela. A maldita tinha companhia. E já estava acordando. Corri para fora do quarto, tranquei a porta atrás de mim e senti as dezenas de pequenos corpos batendo para abrir a porta.
Corri, o sangue pingando no carpete, para fora de casa. Vi as estrelas entrando pela janela do meu quarto. Percebi que ainda estava com o retrato de meus pais. Um grito lá de casa.
Meus pais continuavam lá, e minha irmã mais nova também. Peguei um taco de beisebol na garagem e corri de volta para casa. A porta de meu quarto, destruída. Da porta do quarto de meus pais, um pequeno filete de um líquido viscoso. Lá dentro, no berço, a irmã chorava. Pela janela, saía a última fada, saciada.
A bebê chorava, salpicada de sangue, encarando com incompreensão os restos mortais esqueléticos e repulsivos que um dia chamei de pais. Morreram juntos, e agora era uma só massa pútrida. A bebê parou de chorar. Por algum motivo, agora me encarava, e seus olhos... Já não eram os mesmos.
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