O Pesquisador
Alô, som. Testando. Isso está gravando? Tudo bem. Este é o relatório oficial da pesquisa de campo sobre a existência da "influência não-natural do curso dos acontecimentos", comumente denominada "magia", na realidade. Os dados foram colhidos em um ambiente distinto do habitual, em vista de total imparcialidade, por um período de 4 anos, respectivamente dedicados ao estudo da fé, ciência, criação e relações humanas.
Durante o primeiro ano, convivi com um jovem taoista. Suas crenças eram absurdas. Ele enxergava harmonia dentro de todas as pessoas, mesmo vendo as atrocidades cometidas diariamente contra a vida e dignidade humanas. Também via, dentro de cada um, um caminho a ser seguido, mesmo sabendo da fragilidade da vida e imprevisibilidade de seus rumos. Sua atitude era totalmente irracional. Suas crenças, sem qualquer fundamento científico, provavelmente respostas a estímulos culturais implantados ao longo dos anos.
O segundo ano, no qual vivi ao lado de um renomado cientista também apelidado de "caçador de mitos", foi dedicado à pesquisa da natureza, com direito a algumas notas. Monstros marinhos da era medieval eram nada mais que gigantescos animais marinhos como baleias e tubarões. A aurora boreal é reflexo da radiação solar na atmosfera terrestre. As cores do pôr-do-sol são nada mais que ondas eletromagnéticas interpretadas pelo cérebro. A ciência dá as respostas para o que era misticismo e intuição. Embora limitada, tende a progredir.
A criação humana, foco da pesquisa no terceiro ano, é uma impressionante combinação de técnica, sentimento e intelecto. Daí vêm as artes, esportes, sistemas de poder, as bases do mundo moderno. Frutos da racionalidade que diferencia os humanos dos demais animais, misturada com a desordem de suas emoções, também humanas, consequências da formação do sujeito e da sociedade que o rodeia. Foi o que me ensinaram uma jovem artista e alguns políticos corruptos. A sociologia e a filosofia explicam isso.
No quarto ano, foquei nas relações humanas. Já tinha alguma experiência, por isso resolvi investir mais nessa área. Fui introduzido em uma clássica família do século XXI. Os jovens nascem e crescem rodeados de muitos hormônios, frases e sufocamentos, comumente denominados "amor", interessantemente presente em um pacto social posterior, o "casamento". Uma vez adultos, os filhos se encaminham para a independência social, mas nunca completamente, tornando a interação humana uma necessidade quase que fisiológica.
Sendo assim, na humilde opinião deste pesquisador, não há nada mais a afirmar, senão que, com certeza, esta realidade é repleta, em algum de seus muitos sentidos, de "magia". A fé é irracional. É ilógica. Mas também move as pessoas, seja para o bem ou para o mal, seja nos costumes de uma religião ou na esperança de dias melhores. A ciência é descoberta. Também é feita de fatos. Mas o brilho de um pôr-do-sol ainda atinge-me em uma profundidade que só posso definir como alma.
A criação é consequência de um processo evolutivo: a racionalidade. Mas de onde ela surgiu? As artes e processos mais inusitados, tais quais a bela Mona Lisa ou a própria revolucionária democracia, surgem de mentes geniais, que se sobressaem de padrões, e se instalam no imaginário e no emocional das pessoas. Por fim, as relações pessoais me mostraram a tal "magia", considerada por mim tão improvável... No amor. Seria fútil tentar explicar aqui a dimensão da minha paixão pela jovem artista. Só posso dizer que é irracional, ilógico, e a melhor coisa que já senti na minha vida.
Nas palavras de Arthur Charles Clarke, qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia, sendo assim, posso estar equivocado em meus conceitos, mas a improbabilidade de eventos tão singulares e profundos em relação aos sentimentos e à existência do ser pode, muito bem, ser denominada magia, como já foi um dia.
Bom, agora tenho que ir. Vou abastecer a nave, que convenientemente funciona a diesel, e voltar pra casa, levando comigo a minha amada. Deixo este pequeno planeta Terra com a convicção de que existe algo a mais em nossa existência, e "magia" é só mais uma de suas denominações.
Câmbio, desligo.
O segundo ano, no qual vivi ao lado de um renomado cientista também apelidado de "caçador de mitos", foi dedicado à pesquisa da natureza, com direito a algumas notas. Monstros marinhos da era medieval eram nada mais que gigantescos animais marinhos como baleias e tubarões. A aurora boreal é reflexo da radiação solar na atmosfera terrestre. As cores do pôr-do-sol são nada mais que ondas eletromagnéticas interpretadas pelo cérebro. A ciência dá as respostas para o que era misticismo e intuição. Embora limitada, tende a progredir.
A criação humana, foco da pesquisa no terceiro ano, é uma impressionante combinação de técnica, sentimento e intelecto. Daí vêm as artes, esportes, sistemas de poder, as bases do mundo moderno. Frutos da racionalidade que diferencia os humanos dos demais animais, misturada com a desordem de suas emoções, também humanas, consequências da formação do sujeito e da sociedade que o rodeia. Foi o que me ensinaram uma jovem artista e alguns políticos corruptos. A sociologia e a filosofia explicam isso.
No quarto ano, foquei nas relações humanas. Já tinha alguma experiência, por isso resolvi investir mais nessa área. Fui introduzido em uma clássica família do século XXI. Os jovens nascem e crescem rodeados de muitos hormônios, frases e sufocamentos, comumente denominados "amor", interessantemente presente em um pacto social posterior, o "casamento". Uma vez adultos, os filhos se encaminham para a independência social, mas nunca completamente, tornando a interação humana uma necessidade quase que fisiológica.
Sendo assim, na humilde opinião deste pesquisador, não há nada mais a afirmar, senão que, com certeza, esta realidade é repleta, em algum de seus muitos sentidos, de "magia". A fé é irracional. É ilógica. Mas também move as pessoas, seja para o bem ou para o mal, seja nos costumes de uma religião ou na esperança de dias melhores. A ciência é descoberta. Também é feita de fatos. Mas o brilho de um pôr-do-sol ainda atinge-me em uma profundidade que só posso definir como alma.
A criação é consequência de um processo evolutivo: a racionalidade. Mas de onde ela surgiu? As artes e processos mais inusitados, tais quais a bela Mona Lisa ou a própria revolucionária democracia, surgem de mentes geniais, que se sobressaem de padrões, e se instalam no imaginário e no emocional das pessoas. Por fim, as relações pessoais me mostraram a tal "magia", considerada por mim tão improvável... No amor. Seria fútil tentar explicar aqui a dimensão da minha paixão pela jovem artista. Só posso dizer que é irracional, ilógico, e a melhor coisa que já senti na minha vida.
Nas palavras de Arthur Charles Clarke, qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia, sendo assim, posso estar equivocado em meus conceitos, mas a improbabilidade de eventos tão singulares e profundos em relação aos sentimentos e à existência do ser pode, muito bem, ser denominada magia, como já foi um dia.
Bom, agora tenho que ir. Vou abastecer a nave, que convenientemente funciona a diesel, e voltar pra casa, levando comigo a minha amada. Deixo este pequeno planeta Terra com a convicção de que existe algo a mais em nossa existência, e "magia" é só mais uma de suas denominações.
Câmbio, desligo.
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